florestas

Floresta dos plátanos, choupos, freixos, faias, salgueiros, olmos, oliveiras, castanheiros, carvalhos, sobreiros, azinheiras, pinheiros bravos e mansos....
Um blog para seres da floresta, do deserto, dos grandes mares, das planícies, das montanhas, dos rios, das rias, das cidades... não acessível a tias!

domingo, novembro 05, 2006

Actividades Educativas







Procurando no google (imagens) por actividades educativas apareceu-me isto:



















Fiquei na dúvida! Devemos fazê-las ou não? Estas são pagas? Implicam uma nova proposta para o conteúdo funcional dos docentes?
Tudo coisas a perguntar a Maria das Actividades Educativas a Preço Zero, MAEPZ para os íntimos.

o S de quem?




Salazar, no seu culto do chefe e do sacrifício nacional, do Portugal dos Pobrezinhos Obedientes, servia-se de uma propaganda bastante activa que exaltava a figura do chefe e das medidas de salvação nacional. Tudo servia: eram as Lições de Salazar, eram os livros da escola, a exposição do Mundo Português, a Mocidade Portuguesa com a fivela do cinto com um "S".
Diziam-se piadas, murmuradas, acerca do "S".
Mas propaganda a sério é agora. Tudo serve, desde que dê visibilidade... Até revistas no estrangeiro (ehehehehe).
Parece que os professores e os alunos terão de voltar a usar cinto uniforme, com um "S" igualmente, sabe-se lá porquê...
As piadas adaptam-se e as canções ganham novos refrões.
Pode ser que este se aplique:

"Sou soldado socialista
Sem Sócrates saber
Se Sócrates soubesse
Seria sério sarilho. "

Mas pior, pior, será se Sócrates e a Maria das Actividades Educativas Isentas de Salário se juntam na fábrica dos cintos.
É que cintos "SM" já será um bocadinho demais...

quinta-feira, novembro 02, 2006

Renoir - Raparigas de Preto

XLVI
(Finjo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo)


De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, outubro 25, 2006

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade


















Auguste Rodin - O Beijo

sábado, outubro 21, 2006

Dedicado aos democratas do ME


Um pequeno trecho de uma composição muito popular:

(...)

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.


(...)

segunda-feira, outubro 16, 2006

O que faz falta
































Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando à esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder à malta
O que faz falta

sábado, outubro 14, 2006

Casa















Salvador Dali
Mulher com Cabeça de Flores

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão Ferreira

segunda-feira, outubro 09, 2006



















A VIAGEM

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma o dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


Miguel Torga, Câmara Ardente

terça-feira, outubro 03, 2006

Poema

Brueghel -The Massacre of the Innocents














Poema

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, outubro 01, 2006

Dificuldade de Governar




















1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem A
s palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht


quarta-feira, setembro 27, 2006

Degas - Blue Dancers




















Por delicadeza

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi a minha vida»

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, agosto 09, 2006

Claude Monet
Haystack at Giverny














Entardecer

Cala-se o humano cicio
E rumoreja o arvoredo
em transe como bruxedo
que o coração mal distingue,
outros tempos, doces dores.
Varrem-me o seio tremores
quais relãmpagos de estio.

Joseph Von Eichendorff
A maior desgraça que pode acontecer a um artista é começar pela literatura, em vez de começar pela vida.
Miguel Torga

procure outras florestas, outras árvores, não hesite...