florestas

Floresta dos plátanos, choupos, freixos, faias, salgueiros, olmos, oliveiras, castanheiros, carvalhos, sobreiros, azinheiras, pinheiros bravos e mansos....
Um blog para seres da floresta, do deserto, dos grandes mares, das planícies, das montanhas, dos rios, das rias, das cidades... não acessível a tias!

domingo, julho 30, 2006

LIsboa



Imagem retirada de http://chamomepatricia.blogs.sapo.pt/

Lisboa

A luz vinha devagar
Através do firmamento...
Vinha e ficava no ar,
Parada por um momento,
A ver a terra passar
No seu térreo movimento.

Depois caía em toalha

Sobre as dobras da cidade;
Caía sobre a mortalha
De ambições e de poalha,
Quase com brutalidade.

O rio, ao lado, corria

A querer fugir do abraço;
Numa vela que se abria,
E onde um sorriso batia,
O mar já era um regaço.

Mas a luz podia mais,

Voava mais do que a vela;
E o Tejo e os areais
Tingiam-se dos sinais
De uma doença amarela.

Ardia em brasa o Castelo,

Tinha febre o casario;
Cada vez mais nosso e belo,
O profeta do Restelo
Punha as sombras num navio...

Nas casas da Mouraria,

Doirada, a prostituição
Era só melancolia;
Só longínqua nostalgia
De amor e navegação.

Os heróis verdes da História

Tinham tons de humanidade;
No bronze da sua glória
Avivava-se a memória
Do preço da eternidade.

Nas ruas e avenidas,

Enluaradas de espanto,
Penavam, passavam vidas,
Mas espectrais, diluídas
Na cor maciça do encanto.

E a carne das cantarias,

Branca já de seu condão,
Desmaiava em anemias
De marítimas orgias
De um fado de perdição.

Miguel Torga

4 comentários:

Maria Lisboa disse...

Alguém diz com lentidão:
" Lisboa, sabes..."
Eu sei.
É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade

Maria Lisboa disse...

Alguém diz com lentidão:
" Lisboa, sabes..."
Eu sei.
É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade

:)

longedemais disse...

Lisboa! Não seria capaz de viver em qualquer outra cidade... nem mesmo Paris, Nova Iorque, nem sequer a belissima Roma! O poema descreve bem este "paraíso" dos olhos e da alma. Fora de hora de ponta, fora da confusão... nada mais belo do que abrir a janela e ver a nossa Lisboa! ;)

Ana Prado disse...

Ah este poema... este poema é magnífico... curiosamente parido pelo homem da montanha, dos vinhedos, dos Douros desaguados...

Gostei muito de passar por cá:)

Até já:)

A maior desgraça que pode acontecer a um artista é começar pela literatura, em vez de começar pela vida.
Miguel Torga

procure outras florestas, outras árvores, não hesite...