florestas

Floresta dos plátanos, choupos, freixos, faias, salgueiros, olmos, oliveiras, castanheiros, carvalhos, sobreiros, azinheiras, pinheiros bravos e mansos....
Um blog para seres da floresta, do deserto, dos grandes mares, das planícies, das montanhas, dos rios, das rias, das cidades... não acessível a tias!

domingo, novembro 26, 2006

Castigos, avaliações e... invenções!

Hesitei! Hesitei muito. Não sabia (e ainda não sei) se devia relatar um exemplo pessoal, poderia parecer uma coisa egocêntrica, um "lá está ele preocupado com a vidinha dele", uma merdice sem sentido global. Mas os tempos vão tão maus que as hesitações se foram e aqui fica, ao correr do teclado, um testemunho.
Entrei aqui em 1984 para fazer uma substituição. Gostei, mas tive de sair! Voltei anos a fio em mini-concursos (viam-se as colocações à luz de isqueiro, na 24 de Julho ou na 5 de Outubro, à noite que era quando saíam - falta de respeito total). À medida que os anos passavam, os horários duravam mais tempo e o gosto foi-se entranhando. Era provisório (o que quer que isso queira dizer)! Alguns anos depois comecei a perceber que havia colegas efectivos e que para o ser tinha de fazer estágio. Mas não podia, o ME não chamava ninguém, nas universidades não nos queriam (faziam estágios integrados e os moços passavam-nos à frente nos concursos), já tinham gente de sobra, e nós permanecíamos provisórios. Fizemos uma associação de provisórios de História ( um grupo terrível na altura) e, depois de várias peripécias, lá conseguimos que o ME nos deixasse fazer estágio pela Universidade Aberta, desde que fôssemos nós a pagar. Pagámos o estágio inteirinho e já tinhamos passado muitos anos a leccionar! Fomos os primeiros QZP'S e deixámos de ser para ser QE'S. Parecia bom depois de tantos anos como provisórios! Estávamos longe, mas pronto, éramos de um QE! Fomo-nos aproximando, até já podíamos ter filhos e foi o que fizemos de melhor. Estávamos meio velhotes, mas os miúdos cá de casa compensavam a idade e nem tinham consciência que os pais já tinham trinta e muitos. A vida endireitava-se, pelo menos parecia, entre o gosto de dar aulas e os benefícios que isso trazia, a família (com muito esforço) lá havia de compreender que queríamos ser professores. E fomos! Mas além disso fomos pais, e psicólogos, e professores do ensino especial, e professores outra vez, e fomos de um Conselho Executivo e fomos Directores de Turma, e fomos de Conselhos Pedagógicos e fomos formadores de informática (a custo zero), com os custos de chatear os colegas que sabem de informática...
Já fomos tudo! Para o ME não fomos nada!!!! E não podemos progredir, mesmo que apresentemos em relatório os resultdos dos vários projectos em que estivemos envolvidos e em que o ME fez pressão para que nos envolvêssemos: Posso citar, assim de lembrança, os "Todos Diferentes, Todos Iguais", o "Entreculturas", o Nònio, o Prodep... o raio que os parta.!
Mas, no percurso, ainda construímos um Centro de Recursos que faz inveja à Finlândia e ainda fizemos várias páginas da internet das escolas, e blogs do nosso grupo...
Para quê? Para nada! Estamos impedidos de progredir! Para outros professores esta conversa nem faz sentido: estão impedidos de o ser (mesmo que tenham montes de anos de ensino). Professor actual é professor barato! Nem outra coisa seria de esperar depois da desvalorização intencional que estes seres cavernosos fizeram da classe docente! A escola vai melhorar??? Eu, que consegui fazer isto tudo, "sem ser avaliado, sem ser bom profissional", permito-me duvidar, muito, mas mesmo muito!!!!!!! Sinto-me o Professor Dodot, depois de limpar a merda que eles fazem, passo a ser descartável.
Para outros, mais novos, esta conversa nem tem sentido. Eles são a escumalha da educação (para o ME). São gente sem emprego, não são professores, professor é aquele que morre pobre e... missionário!
É a escola onde os valores são os valores do que se pode poupar.
E se eles se fossem ...???

2 comentários:

f... disse...

Como sempre escrevi demais! ;)
Escrevi tanto que acabei por ir colocar a resposta aqui:

Resposta a : Castigos, avaliações e... invenções! in:
http://professorsemquadro.blogspot.com/

:)

IC disse...

Eu sei que não tive que me perguntar "Para quê?", que não tive que sentir na pele "Estamos impedidos de progredir", mas acredita que, até por isso mesmo, não só acompanho, mas vivo esta cena do ECD (e não só)como se estivesse pessoalmente a passar por ela. Sabes porquê? Porque me faz também perguntar "para quê?". Envolvemo-nos, procurámos tapar buracos das políticas educativas (ou falta de verdadeiras políticas educativas), tentámos que, apesar de tudo, a escola oferecesse a qualidade de ensino (e educação) possível em insufucientes condições e recursos, e agora esta ministra e sua equipa impõem medidas de consequências previsivelmente desastrosas, desmoraliza e desmotiva os professores e consente no rebaixamento da sua imagem. Para quem não gostou apenas de ensinar, mas participou nas lutas - sindicais e quotidianas - por um estatuto profissional digno e um sistema de ensino de qualidade, o terrível "Para quê" vem à mente. É terrível perguntar Para quê? sobre seja o que for que tenha feito parte de investimentos da nossa vida.
Mas eu não escreveria isto tudo se, na verdade, apesar desses momentos em que tendemos a perguntar Para quê?, eu não acreditasse que nada daquilo em que investimos com amor e sonho é inútil, mesmo que em dado momento pareça. E foi este pensamento, esta convicção, que aqui te quis deixar. :)
(Além de que este ECD há-de ir abaixo, embora não já)

A maior desgraça que pode acontecer a um artista é começar pela literatura, em vez de começar pela vida.
Miguel Torga

procure outras florestas, outras árvores, não hesite...